sábado, 2 de julho de 2011

Família – Barbara Delinsky

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Dana Clark sempre ansiou pela estabilidade de um lar e de uma família. Porém, prestes a dar à luz, o que deveria ser o dia mais feliz de sua vida se transformará no dia em que seu mundo desmoronou. Integrantes de uma comunidade conservadora branca de New England, Estados Unidos, Dana e seu marido Hugh tem suas vidas alteradas quando seu bebê nasce negro. O marido, para grande choque e tristeza da mulher, começa a se preocupar e a se inquietar: O que as pessoas pensarão? Que Dana teve um caso extraconjugal? O que dizer aos pais após tê-los enfrentado para casar com Dana? Enquanto a protagonista procura por seu pai desaparecido e tenta descobrir suas verdadeiras origens, Hugh tem que enfrentar seus ideais, até então não racistas, para conseguir conviver e amar a filha.

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Senta que lá vem história… E das boas!^^

A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito”, como diz a música cujo intérprete é o intrépido Lulu Santos, então não adianta jogar a sugeira no mar, porque a onda traz de volta e cospe tudo na areia.

Família mostra exatamente isso: um livro que me deixou com uma inveja estratosférica da ousadia, coragem e criatividade de Barbara Delinsky. Para quem leu pouco, o livro aparenta ser somente um romance que aborda o cerne do preconceito racial. Mas não se enganem, é muito mais! É um sutil tapa de pelica no preconceito racial e social que está embaixo do tapete do “Tio San”.

Anos atrás, uma década de estudos americanos mostrou o tamanho do preconceito racial dentro dos EUA de uma forma singular – inclusive no modo que tratam pacientes brancos e negros num racismo inconsciente que se instalou dentro da mente de jovens médicos proveniente da cultura nacional. Segundo o estudo,

“Os pacientes negros que estão em meio a um ataque cardíaco, por exemplo, têm apenas a metade da probabilidade de receber medicação anti-coagulante em relação aos pacientes brancos, e é também bem menos provável que sejam submetidos a uma cirurgia de tórax aberto. De maneira similar, as mulheres negras são submetidas a exames para detecção do câncer da mama com freqüência substancialmente inferior à das mulheres brancas. E um número menor de bebês negros vive para comemorar o primeiro aniversário: em Massachusetts, o índice de mortalidade dos bebês negros é mais do que o dobro daquele registrado entre os bebês brancos.”

Sabendo disso, faz toda a diferença uma autora de romances e psicóloga americana branca ter a coragem de vir a público expor uma ferida social que existe de forma implícita num romance tão cheio de situações intensas e vergonhosas, porém reais. Porque se você é norte-americano e venceu por mérito próprio chegando no topo, será difícil ser aceito 100% se for negro; porque você tem poder de compra, mas do ponto de vista social, é um cidadão de segundo escalão.

“… Portanto sim, a cor é a primeira coisa que as pessoas vêem. É sempre a primeira coisa que elas vêem. Qualquer um que diga que não faz isso está mentindo.”

(pág. 106)

Daí, é irremediavelmente surpreendente (e graças a Deus uma prova de que as coisas estão melhorando ao longo dos anos) que Martin Luter King, Reverendo Jesse Jackson, Oprah Winfrey e Barak Obama  tenham a posição que têm. Porque o prestígio desses negros é comparável a ganhar um prêmio da mega-sena acumulado em 150 trilhões de reais aqui no Brasil: quase surreal. Quando assisti a posse de Obama, chorei junto com a filha do Martin (Bernice King) e com a Oprah que estavam no meio da multidão e agradeci a Deus por tamanho presente porque os americanos mostraram pela primeira vez em séculos que estão dispostos a rever o status do negro dentro da sociedade.

Aí vocês perguntam: mas como assim surreal, como assim preconceito racial? Simples. Lembram daquele jogador negro de futebol americano O. J. Simpson acusado de matar a ex-esposa Nicole Brown seu amigo Ronald Goldman a facadas? Lembram do processo contra o Michael Jackson que não deu em nada? O que mais foi debatido nem foi o crime em si e sim o fato de, por serem negros, será que iam ou não serem condenados.

E eis que a Barbara levanta o tapete da orgulhosa sociedade norte-americana em 2007 – justo no ano do julgamento de O. J. lançando esse romance. Dana é uma mulher que só quer uma única coisa: ter a família que sempre sonhou e nunca teve. Um lar onde existam os personagens comuns nas famílias: pai, mãe e filhos. E seus sonhos são frustrados porque sua filha Lizzy nasce com a cor da pele escura. Considerando que ela era loura e o pai oriundo da aristocracia norte-americana exacerbadamente orgulhosa do sangue puro de anlgo-saxões, uma filha negra mostra a falha contudente de Hugh ao introduzir no seio da família Clark uma pessoa de classe social inferior que veio manchar a “pureza branca de sua árvore genealógica”. Apesar de um bebê ser a mais explícita prova do milagre da vida, o nascimento de Lizzy mostra a Dana, uma mãe humilhada, ferida e massacrada que a filha dela é encarada com vergonha pela família do marido e gera a desconfiança do mesmo e do círculo social que vivem quanto a sua fidelidade.

São páginas e mais páginas da mais pura realidade social americana e de tantas outras sociedades mundiais ao redor do globo. São situações do passado que foram convenientemente esquecidas que vem a tona até que, lentamente, um por um, cada personagem se confronta com os seus “podres” e começam a ver tudo de uma nova perspectiva, evoluindo, amadurecendo e tornando-se mais humanos e menos preconceituosos, sendo muito gratificante para o leitor ver-lhes a admissão dos erros e preconceitos de forma tão sincera e crua.

Dana é uma mulher forte para a sociedade, mas na realidade não passa uma mulher que além de se sentir inferior é frágil, confusa,   ferida e nutre mágoas difíceis até de serem admitidas por ela mesma. Mas assim como os demais, ela evolui e se permite superá-las devagarino, curando assim todo o seu íntimo covarde de furgir ao invés de enfrentar e resolver as suas relações familiares. E a forma que ela encontra para superar tudo é lembrar a si mesma que ninguém é perfeito e se colocando no lugar do outro, consegue ver a dor e a confusão como sua – uma excelente saída.

Este é um livro que vai apodrecer na minha estante para que eu leia uma vez ou outra e me lembre sempre que nem todos aqueles que levantam a bandeira por uma causa são de fato verdadeiros. A hipocrisia descrita no livro é latente na vida real e a minha teoria de não se acovardar ante as dificuldades e crises ficou ainda mais forte. Um trecho significativamente importante é este aqui:

“- A vida é cheia de “deverias” – prosseguiu o padre Jack. – Só que se relacionam com o passado. Portanto, podemos nos apegar a eles… nos apegar ao passado… ou podemos seguir em frente. Eu quero seguir em frente.

- Você aprendeu a fazer isso. É por causa da sua fé?

- É basicamente por bom-senso. (…)

(…) - Tentar superar. Quando você estiver com alguém que te enfurece, obrigue-se a encontrar três coisas boas naquela pessoa.

(Páginas 307 e 308)

 

Livro nota 1000, RECOMENDADÍSSIMOOOO!!!

desculpe o texto extenso.

Hasta la vista!^^

SuzanaPandora

Ficha Técnica:

Título: Família

Autora: Barbara Delinsky

Editora: Bertrand Brasil

ISBN: 9788528614886

Número de páginas: 350.

5 comentários :

  1. Suzana Arrasou!!!!!!!
    Fiquei sem palavras,até mesmo porque vc já disse tudo.Adorei a resenha me deixou com muita vontade de ler.Quero emprestado viu??

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  2. resenha perfeita!!!!! Suzana vc arrasou como sempre. Deu vontade de ler, gosto muitos de livros assim que depois que vc termina de ler agregam algo de valor na sua vida.

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  3. Poxa, pensava que esse livro era outra coisa, mas que grata surpresa, adorei!
    Ale, valeu pela dica, depois da resenha da Suzana ficou claro que preciso ter esse livro, adoro a Barbara e esse livro é o meu número, resenha perfeita!

    Dica super anotada!

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  4. Um livro para ter na estante.

    Bjs,

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  5. Muito interessante a resenha.
    Já tinha visto notícias do lançamento mas não tinha lido nem a sinopse, então fiquei com vontade de ler somente por ser da autora, sem saber do que tratava o livro. Agora desgostei... rsrs. Sou bem sincera em dizer que gosto de ler para me distrair, prefiro livros que tratem de temas leves, que despertem a imaginação e sirvam de fuga da realidade. Sempre que possível descarto livros que sejam muito verídicos.
    Bjkas!!

    Monique Martins
    MoniqueMar
    @moniquemar

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